Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Inserem-se no dispositivo, mas verdadeiramente não estão a ser leitores.


François Closets, em A Felicidade de Aprender e como ela é destruída, exclui da sua análise o modo como o leitor se implica no ato de ler enquanto relação de intimidade. Sublinha o insucesso dos professores, mas não procura, nas suas práticas, as causas do silêncio, do fechamento, da autocaricatura ressentida do aluno-leitor. Pretende resolver o problema com asserções que conduzem à sacramentação do «prazer» como impulso infalível para a educação do leitor, esquecendo que o prazer não educa, é uma coisa evanescente, sustentadora de doutrinas de horizonte muito limitado.
Cecília Meireles obteve — em questionários que aplicou a mil e quinhentas crianças e jovens, num inquérito promovido em 1931 sobre o modo como liam — respostas de que extraio alguns dados:
“f) a maioria das crianças indica que preferiria ler livros de fantasia, o que sugere serem elas levadas a consumir obras de cunho escolar ou educativo;
[...]
h) a maioria diz preferir ler em casa, não na escola;”
As leituras em que se ativa a «fantasia», as narrativas imaginárias comandadas pelo próprio leitor, sem interferência dos professores, opõem-se à leitura escolar e respondem à necessidade pessoal da leitura. A distinção entre o que leem e o que confessam gostar de ler é associada à ecologia da leitura que preferem: íntima, pessoal, desprovida da presença de outros leitores. Na cena escolar, ler passa a responder a finalidades e necessidades simbolicamente descapitalizadas. As práticas docentes, visando a conquista de leitores, retiram os alunos da sua condição de leitores autênticos. Eles deixam-se infiltrar, mas destituem-se, demitem-se, dissimulam, cumprem — mais ou menos benevolamente — papéis, inserem-se no dispositivo, mas verdadeiramente não estão a ser leitores. Os professores constroem cenas de leitura tecnicamente muito apuradas, promovem dispositivos oleados para que neles os alunos engrenem como leitores, mas, não assumindo e não libertando, nessas cenas, a sua própria cultura e o seu próprio imaginário de leitores, não promovendo o contágio entre o imaginário do professor-leitor e do aluno-leitor, retiram os alunos da possibilidade de, na escola, assumirem o papel fundamental de sujeitos da leitura.
        A problemática da leitura na escola, ou seja, da educação escolar do leitor, radica, portanto, noutras problemáticas: a da identidade da escola; a da identidade docente.

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