Na leitura escolar, a tendência predominante é a da leitura centrípeta, ou seja, a da centralidade do texto. A curta margem dada ao leitor sofre uma reconversão didática, através da sua ocupação predominante pelo professor (submetido a orientações programáticas) em interação assimétrica com o aluno. A leitura escolar, quando a não impede totalmente, minimiza drasticamente a hipótese do aluno como leitor genuíno, como cúmplice do mistério. A leitura escolar reduz o aluno-leitor à condição de espectador participante da condução de uma leitura determinada pelo texto e pela sua circunstância didática. Este marcado desequilíbrio de autoridade entre o texto e o aluno-leitor, produzido pela didatização da leitura, provoca um efeito de desertificação: ninguém é ali um leitor genuíno. Professor e aluno formam uma dupla de emissor/receptor de uma leitura encomendada por finalidades utilitárias de índole escolar, inscritas em programas e outros textos orientadores e em instrumentos de avaliação. A leitura genuína sai de cena, expulsa em prol do seu sucedâneo didático: uma leitura de serventia. Não se trata, no entanto, de uma situação cuja virtualidade resolutiva (assente num juízo sancionador quer da opção pela leitura didatizada quer da opção pela leitura genuína) se afigure fácil. Trata-se de uma situação claramente dilemática que necessita da intervenção de um fator capaz de a transcender em resolução positiva: nem a identidade escolar deve sofrer o detrimento da educação, produzido pela total aceitação da leitura genuína do aluno, de tendência centrífuga em relação ao texto; nem a educação do leitor se faz sem a criação de formas de cumplicidade do aluno com os textos.
Pippi is back
Há 18 horas
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