Sábado, 28 de Janeiro de 2012

UMA IDENTIDADE DOCENTE SINGULAR


O professor Vergílio Ferreira define-se como um locus ético e cultural que adopta a formalidade necessária à resolução exacta do paradoxo educativo: constranger para libertar. Sobrepõe-se à razão dos vários factores que criam a situação educativa escolar e torna-se o factor determinante da significação do acto educativo. Assume, dentro da formalidade escolar, um modelo de transcendência cultural, literária, em aliança transformadora com o aluno, abrindo, confrontando, suscitando o poder da imitação, originando a transformação, fazendo guardar memória e estruturar referência, educando. Busca a aliança do aluno enquanto lugar de relação/sedução (repulsa?), de exposição de um modelo de saber a ser apropriado e reconstruído. É a presença o que mais ensina. Estruturante deste saber, que em si presentifica, é a sua alta e profunda cultura, a sua essência e existência de criador literário, o seu amor da Arte. Exerce a sua presença modelar numa prática de mestria em meio comunicacional narrativo-dramático das suas experiências, memórias, gosto, referências. Acolhe a razão dialéctica do aluno num horizonte de educação. A paixão da cultura e a «religião» da Arte dão-lhe a singularidade que dificilmente se integra em cartilhas maioritariamente subscritas. À sua singularidade pertencem a honestidade e integridade intelectuais e morais radicadas numa reflexividade sintetizadora da transcendência dos princípios em relação às contingências. Singularidade solitária que rejeita juízos fáceis e dicotomias apaziguadoras da complexidade das inter-relações; desconfortável, incomodada, não alinhada com a via da satisfação superficial, com o ar dos tempos propícios às ilusões e aos erros de julgamento. Professor lúcido e receosamente seguro de que a fúria do acessório comprometa o essencial, destrua a identidade matricial da Escola, a inter-relação necessária à sua existência: o ensino. Homem de Arte, criador, carrega a experiência aprisionante da liberdade e do tempo cometida pela coisa escolar, obrigado à imposição do outro, ao apertado círculo das relações interpessoais vigiadas, cercadas por poderes vários, em que o acto libertador de ensinar se realiza. Sábio convicto de que o torvelinho quotidiano da afirmação e satisfação de vontades inviabiliza a grandeza e destrói a transcendência libertadora do acto de ensinar: a libertinagem mata a liberdade. Violento contra a subversão da axiomática assimetria professor-aluno, pilar indiscutível, pedra filosofal do ensino. Violentado pela assunção da condição servil da Escola e indignado com a futilidade que remete, para condição mesquinha, a nobreza essencial do mestre. Pensador da educação como possibilidade utópica de um reino de saber e de cultura em confrontação amarga com o poder da mediocridade: contradição irredutível entre a experiência jubilosa do saber e a mecânica trituradora da instituição escolar. Vive seriamente o pathos escolar como parte necessária do ensino, sem o qual a Escola se transforma em outra coisa, se torna monstruosa, se desvia de si própria, se esvazia, se torna falaciosa. Força originária em terreno repisado pelo esquecimento da verdade. Professor resistente à miséria intelectual, em luta contra a homogeneização conduzida pela vontade de satisfação material imediata que destrói «o mundo original» de afirmação e descoberta, criatividade, acesso cultural e artístico. Assume o poder e até a violência do professor, que lhe ocupa o ser como inquilino que não despeja, mas cumpre como um Sísifo e adopta como persona e como metáfora de algumas das esquinas do seu temperamento e do seu carácter. Professor como metáfora adequada ao seu cultivo da sisudez, da austeridade, da dureza… Drama de relação também. Algumas vezes bálsamo, mas sobretudo azedume. Auto-imposição da menorização do Artista em mestre-escola, mas transcendência pelas mãos livres para as verdadeiras divinas celebrações, as da criação artística. Estatura de criador literário, patente mais do que imagina ou julga que esconde em destilações episódicas. Coisa de formação que, amarrando-o, não o deixa libertar-se totalmente, a sua representação na cena escolar ficará sempre marcada por uma disciplina opressora. Infeliz, como se ser professor fosse o suor do seu rosto, o seu sacrifício aos deuses invejosos da liberdade criadora. Sacrifício compensado pelas fugas para a terra da alegria: a dádiva da Arte, da cultura, pela palavra que ensina. Mestre da curiosidade, professor próximo das Musas, quebra a monotonia escolar criando espaço/tempo de intervalo na sequência prevista e previsível, em que acontece a presença desprovida do prescrito que fascina, seduz, institui aliança. É neste ponto, simultâneo de interferência e de distância, que gera a lição formadora da curiosidade, semente de colheitas futuras. Ao graduar o professor meticuloso em mestre excessivo, abre a fenda sobre a paisagem fascinante do seu saber, suscitando o desejo de aceder. O Professor Vergílio Ferreira é a liberdade e o debate habitando o formalismo, a palavra pura, essencial, denunciando a codificação didáctica. Esta palavra que assume é o seu bem e o seu mal, a montante e a jusante da lição, em insubmissão e ruptura, em amargura e violência. A linha de coerência do professor Vergílio Ferreira é complexa, paradoxal. A densidade deste paradoxo revela a sua inscrição profunda na vivência autêntica da função educativa.

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