Quando me lembro de vós e vos vejo, parece-me que gostaríeis de que a Escola só vos dissesse que sim, servisse apenas para oficializar o que já sabeis, para vos ratificar a vós que vindes já todos feitinhos por um mundo superpovoado de tanta e tão truculenta informação. Gostaríeis que a escola só vos fizesse as perguntas para as quais já possuís as respostas. Ou, pelo menos, respostas aproximadas que estais convencidos de que servem perfeitamente e que a Escola, como um parceiro benévolo, deveria aceitar. Por isso, ficais de certo modo ofendidos e perplexos, como se não estivésseis a ouvir bem, como se se tratasse de um problema de tradução, quando vos recuso peremptoriamente respostas imprecisas, pouco rigorosas, ainda que sensivelmente parecidas com o que poderia e deveria ser. É como se, acerca de tudo e de cada coisa de que a Escola tem de tratar, já tivésseis ouvido falar neste mundo que de tudo fala. Como se o vosso olhar me estivesse a dizer: — Assim, como quer, não sei bem… Eu sei, mas não sei é dizer do modo que quer… Com certeza que já ouvi falar disso… Mas não está a perceber bem… não está a perceber que eu já sei isso… É esta reacção primeira de incredulidade que se dá quando eu não coincido, me recuso a coincidir com a falabaratice que anda pelos mundos visuais e virtuais que vos cercam e são o vosso habitat informativo. É tão engraçado ver as vossas caras perante a firmeza e a impassibilidade da exigência de um saber rigoroso, dito com palavras rigorosas! São tão engraçados os vossos amuos, as vossas perrices, quando são liminarmente rejeitadas as vossas laboriosas falas: «é assim uma coisa tipo…»; «ah, isso é aquela coisa do…»; «é género um…». E a verdade, meus alunos, é que eu até poderia reagir, sou mesmo aconselhada, orientada para reagir, começando por dizer sim e depois indo acrescentando mas, até chegar ao não. Suavidade no trato! Não sou capaz. Confesso que não sou capaz. E o que vos digo, bem pelo contrário, o que vos digo é: não. Assim, não. Há que aprender outra maneira de ser: rigorosa. E depois, sem complacência, substituo o vosso arremedo de conhecimento por um discurso cheio de palavras que se vos tornam difíceis. E o vosso olhar parece começar a adoptar a estratégia defensiva da desconfiança: — Não estará ela a inventar? ou — Precisarei eu, mesmo, de saber isto assim, nesta versão, como ela quer? Esta é a vossa incredulidade perante o saber escolar, que nunca procuro travestir para que vos pareça mais familiar. Verdadeiramente divertido para mim é o vosso percurso da incredulidade à fé! Tão divertido, ser professor! Nestas coisas é que é divertido ser professor. Começais por essa atitude pouco confiante, mas, ao mesmo tempo, tendes medo de perder alguma coisa, medo de que, ao predispor-vos para menosprezardes a minha versão, possais perder algum trunfo, possais de algum modo fragilizar a vossa posição no jogo didáctico. E é aí que algum ou alguns de vós, embora também cépticos, mas menos perdulários, resolvem entrar no meu jogo, resolvem tacticamente adoptar a minha versão, o meu tom, o meu registo, começando a dizer coisas ‘diferentes’, algumas tão ‘diferentes’ que vos parecem quase esotéricas. Dizem coisas que, em boca de aluno, parecem tão bem soantes! E fazem nascer pela sala, aqui e ali, alguma admiração. E é então que começa a dar-se um efeito de alastramento, efeito-dominó-ao-contrário em que as peças (vós) sucessivamente se levantam. E é então que, ao mesmo tempo que sorris como que com algum desdém ou algum pudor, como que começais como que a sentirdes-vos como que excluídos da como que tertúlia que se gera entre mim e esses que decidiram entrar no meu jogo. Então, mais disponíveis, tendo alargado um bocadinho mais os vossos critérios do não querer saber, levados pela cobiça do ‘diferente’ que tanto vos atrai ou apanhados desprevenidos por um lance de curiosidade e entusiasmo autênticos, começais a passar da desconfiança à dúvida. Chegados à dúvida, zás! Estais ganhos. Quando vos apanho de olhar já preso ao lado de cá, ao lado do saber que tenho para vós, deixo o resto por minha conta. Tenho então artes de vos fazer passar para o lado da Escola, deixando o nosso jogo calculista e passando ao fascinante jogo da verdade. Tão divertido, meus alunos!
Maria Almira Soares, Carta de uma professora aos seus últimos alunos
























