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Domingo, 18 de Março de 2012
Quarta-feira, 14 de Março de 2012
Segunda-feira, 12 de Março de 2012
Domingo, 11 de Março de 2012
A VARIADA LAMINAÇÃO DA MEMÓRIA
DESDOBRAMENTOS INCOINCIDENTES QUE TENTAMOS AJUSTAR
Contar o antecedente é, apesar de tudo, fácil, pacífico. Já aconteceu. O que começa depois da chegada da carta que parece desmentir o que sabíamos é que tem a gravidade de um 2º ato. Exige a abertura de uma página branca dizendo 2. O 2. acumula o 1. É necessário ajustar o 2. ao 1. Despertar a responsabilidade. Criar instabilidade. Abre-se, então, o campo das “imperfeições e “insuficiências” do arquivamento. “E é assim a vida, não é?”, perguntara, lá atrás, Tony Webster a quem imagina que somos. Como se estivesse a dar-nos já uma solução. Solução é solvência, interrupção, intervalo. Não é o sentido de um fim. Fim é “a improbabilidade da mudança”. Fim é a “pausa” para ver “o que há”. Na ética das consequências, numa ética reflexiva à Vergílio Ferreira em que “o maior esforço é tentar compreender a paradoxal exatidão da vida”. A vida, ou seja, “as histórias que contamos a nós mesmos”, enquanto o tempo vai encolhendo até se aproximar da inexistência, da pausa, do “agora”, do HÁ llansoniano. O tempo é interpretação, ou seja, desdobramentos incoincidentes que tentamos ajustar. Sobrepor a variada laminação da memória, focar o olhar, acertar as várias formas de nitidez: a dos sentidos, a dos afetos, a dos pensamentos, a dos factos. Para perceber “o sentido de um fim”: fim de linha, fim de página, fim de vida, ou seja, da “história que contamos a nós mesmos”. “Nunca percebeste, pois não?” Uma história que pede a inteligência interpretativa de um leitor.
Os grandes romances abrem sobre o sentido que circula por entre as várias camadas das vidas. Por isso, surpreendem. Neles, tudo está em tudo: o antes no depois, a essência no pormenor, as verdades nos enganos e desenganos. Mesmo que se expressem “na terminologia narrativa tradicional”
como Os Maias de Eça de Queirós:
“À irmã... A que irmã?
[...]
- A que irmã!? À irmã, à única que tem, à Maria!”
ou não,
como em The sense of an ending de Julian Barnes:
“Não percebo?
“Mary não é mãe dele. Mary é irmã dele.”
Acumulação. Responsabilidade. Agitação.
Carlos Drummond de Andrade
Procura da Poesia
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Quinta-feira, 8 de Março de 2012
Novas Cartas Portuguesas
"Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos."
Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012
fevereiro
fevereiro
Segundo mês do ano. Último no calendário romano.
Os sabinos (um dos povos indoeuropeus que, na era neolítica, habitaram a península itálica, entre o Tibre e os Apeninos) celebravam numa data que, hoje, situamos perto de 15 de fevereiro, a festa anual de purificação a que chamavam februa.
Ao fundador lendário de Roma, Rómulo, atribui-se a unificação dos numerosos calendários, que existiam na península itálica, no século VIII a. de C. Criou um novo calendário de dez meses, distribuídos por um ano de 304 dias. Porém, o calendário de Rómulo, muito diferente do ano tropical, revelou ser uma ferramenta demasiado primitiva para um estado que, poucos séculos mais tarde, se tornaria uma potência.
Assim, no ano 300 a. de C., o edil Flávio criou um novo calendário com dois meses adicionais, a seguir a december: januarius, consagrado a Jano, e februarius, que tomou o nome da antiga festa de purificação dos sabinos, februa.
Este nome existe na maior parte das línguas europeias modernas: fevereiro em português; february em inglês; février em francês, febbraio em italiano, Februar em alemão e febrer em catalão.
Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
O FIM DOS MAIAS
- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança pontualmente às seis! Não aparecer por ai uma tipoia!...
- Espera! - exclamou Ega - Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.
- Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
Sábado, 28 de Janeiro de 2012
UMA IDENTIDADE DOCENTE SINGULAR
O professor Vergílio Ferreira define-se como um locus ético e cultural que adopta a formalidade necessária à resolução exacta do paradoxo educativo: constranger para libertar. Sobrepõe-se à razão dos vários factores que criam a situação educativa escolar e torna-se o factor determinante da significação do acto educativo. Assume, dentro da formalidade escolar, um modelo de transcendência cultural, literária, em aliança transformadora com o aluno, abrindo, confrontando, suscitando o poder da imitação, originando a transformação, fazendo guardar memória e estruturar referência, educando. Busca a aliança do aluno enquanto lugar de relação/sedução (repulsa?), de exposição de um modelo de saber a ser apropriado e reconstruído. É a presença o que mais ensina. Estruturante deste saber, que em si presentifica, é a sua alta e profunda cultura, a sua essência e existência de criador literário, o seu amor da Arte. Exerce a sua presença modelar numa prática de mestria em meio comunicacional narrativo-dramático das suas experiências, memórias, gosto, referências. Acolhe a razão dialéctica do aluno num horizonte de educação. A paixão da cultura e a «religião» da Arte dão-lhe a singularidade que dificilmente se integra em cartilhas maioritariamente subscritas. À sua singularidade pertencem a honestidade e integridade intelectuais e morais radicadas numa reflexividade sintetizadora da transcendência dos princípios em relação às contingências. Singularidade solitária que rejeita juízos fáceis e dicotomias apaziguadoras da complexidade das inter-relações; desconfortável, incomodada, não alinhada com a via da satisfação superficial, com o ar dos tempos propícios às ilusões e aos erros de julgamento. Professor lúcido e receosamente seguro de que a fúria do acessório comprometa o essencial, destrua a identidade matricial da Escola, a inter-relação necessária à sua existência: o ensino. Homem de Arte, criador, carrega a experiência aprisionante da liberdade e do tempo cometida pela coisa escolar, obrigado à imposição do outro, ao apertado círculo das relações interpessoais vigiadas, cercadas por poderes vários, em que o acto libertador de ensinar se realiza. Sábio convicto de que o torvelinho quotidiano da afirmação e satisfação de vontades inviabiliza a grandeza e destrói a transcendência libertadora do acto de ensinar: a libertinagem mata a liberdade. Violento contra a subversão da axiomática assimetria professor-aluno, pilar indiscutível, pedra filosofal do ensino. Violentado pela assunção da condição servil da Escola e indignado com a futilidade que remete, para condição mesquinha, a nobreza essencial do mestre. Pensador da educação como possibilidade utópica de um reino de saber e de cultura em confrontação amarga com o poder da mediocridade: contradição irredutível entre a experiência jubilosa do saber e a mecânica trituradora da instituição escolar. Vive seriamente o pathos escolar como parte necessária do ensino, sem o qual a Escola se transforma em outra coisa, se torna monstruosa, se desvia de si própria, se esvazia, se torna falaciosa. Força originária em terreno repisado pelo esquecimento da verdade. Professor resistente à miséria intelectual, em luta contra a homogeneização conduzida pela vontade de satisfação material imediata que destrói «o mundo original» de afirmação e descoberta, criatividade, acesso cultural e artístico. Assume o poder e até a violência do professor, que lhe ocupa o ser como inquilino que não despeja, mas cumpre como um Sísifo e adopta como persona e como metáfora de algumas das esquinas do seu temperamento e do seu carácter. Professor como metáfora adequada ao seu cultivo da sisudez, da austeridade, da dureza… Drama de relação também. Algumas vezes bálsamo, mas sobretudo azedume. Auto-imposição da menorização do Artista em mestre-escola, mas transcendência pelas mãos livres para as verdadeiras divinas celebrações, as da criação artística. Estatura de criador literário, patente mais do que imagina ou julga que esconde em destilações episódicas. Coisa de formação que, amarrando-o, não o deixa libertar-se totalmente, a sua representação na cena escolar ficará sempre marcada por uma disciplina opressora. Infeliz, como se ser professor fosse o suor do seu rosto, o seu sacrifício aos deuses invejosos da liberdade criadora. Sacrifício compensado pelas fugas para a terra da alegria: a dádiva da Arte, da cultura, pela palavra que ensina. Mestre da curiosidade, professor próximo das Musas, quebra a monotonia escolar criando espaço/tempo de intervalo na sequência prevista e previsível, em que acontece a presença desprovida do prescrito que fascina, seduz, institui aliança. É neste ponto, simultâneo de interferência e de distância, que gera a lição formadora da curiosidade, semente de colheitas futuras. Ao graduar o professor meticuloso em mestre excessivo, abre a fenda sobre a paisagem fascinante do seu saber, suscitando o desejo de aceder. O Professor Vergílio Ferreira é a liberdade e o debate habitando o formalismo, a palavra pura, essencial, denunciando a codificação didáctica. Esta palavra que assume é o seu bem e o seu mal, a montante e a jusante da lição, em insubmissão e ruptura, em amargura e violência. A linha de coerência do professor Vergílio Ferreira é complexa, paradoxal. A densidade deste paradoxo revela a sua inscrição profunda na vivência autêntica da função educativa.
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
"escrever com letras dobradas"
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"— Lá isso diga-se o que é a verdade, não é agora por ser meu filho, mas todos o confessaram. Criança era ele ainda, e já o reitor se espantava da memória do rapaz. E se você visse, Sr. João, o livro que ele escreveu? Chamam-lhe lá teses, ou não sei quê. Pelos modos, sem escrever aquilo, não podem ter as cartas de examina. Eu tenho um que ele me mandou. Como sabe, eu daquilo nada entendo, mas bem vejo que é obra acabada e bem feita. Deixe estar que lho hei de trazer, para ver.
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"— Lá isso diga-se o que é a verdade, não é agora por ser meu filho, mas todos o confessaram. Criança era ele ainda, e já o reitor se espantava da memória do rapaz. E se você visse, Sr. João, o livro que ele escreveu? Chamam-lhe lá teses, ou não sei quê. Pelos modos, sem escrever aquilo, não podem ter as cartas de examina. Eu tenho um que ele me mandou. Como sabe, eu daquilo nada entendo, mas bem vejo que é obra acabada e bem feita. Deixe estar que lho hei de trazer, para ver.
— Eu disso pouco sei dizer, não é a minha especialidade.
Não estamos habilitados para declarar aqui qual fosse a especialidade do Sr. João da Esquina.
— Pois sim, bem sei; — continuou o pai — mas sempre há de encontrar coisa que perceba. O João Semana também tem um que o Daniel lhe mandou e disse-me que está coisa asseada; e o sr. reitor afirmou-me que bem se conhece que o rapaz não se esqueceu do latim, porque em... geografia, parece-me que foi geografia que ele disse, nisto que ensina a escrever com letras dobradas, não tem nada que se lhe note.
— Bom é isso. — replicou o tendeiro, já um pouco distraído a somar as parcelas do seu livro de assentos."
Júlio Dinis, As pupilas do senhor reitor
Júlio Dinis, As pupilas do senhor reitor
Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
Do tratamento dos livros
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Primeiro,
São servidos.
Depois, trinchados.
Uma vez mastigados,
Engolidos,
Arrotados,
Sobram bocados.
Prestesmente conduzidos
A trituradores especializados.
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
Bucólica
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O Bicharoco,
Inclinando o bico
Sobre o papo oco
Mas alvo,
Disse: - Eu fico.
Não era papalvo!
Atrás da postura
Da sua figura,
Conservou a horta
E a tranca na porta.
E ao fundo, enterrado
Sob uma figueira,
O voo poupado
De uma vida inteira.
Sábado, 14 de Janeiro de 2012
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
A comunidade de leitores LERDOCELER vai debater NÉMESIS de Philip Roth.
NÉMESIS
Para obter o ponto de fusão de uma narrativa do quotidiano (individual, social, histórico) com a transcendência, às vezes, basta uma palavra: Némesis. Com a sua aposição sobre a matéria narrada, preenche-se o abismo entre a mera linearidade geométrica de rotinas de um pedaço de vida, de um pedaço de gente num pedaço de História, e o simbolismo mítico, existencial, dessa realidade.
A dimensão literária desta narrativa aparentemente lisa reside, sobretudo, em conseguir que, ao lê-la, nos tornemos implícitos; em fazer com que não nos limitemos a ficar informados, mas fiquemos implicados em coisas que talvez até já soubéssemos; em fazer com que cada peça do puzzle vá sendo posta também pela nossa mão; em conceder-nos um poder demiúrgico equiparado ao do autor. Autor e leitor são senhores dum ponto de vista que lhes permite o lugar de deuses relativamente ao narrado. Hoje, Némesis seria derrotada. A salvação do medo, da perda e da morte seria possível. E este é um ponto de vista significativo na atribuição de valor literário ao narrado. Por isso, ler este livro é também ir tendo na mão, como se os tivéssemos podido mudar (sendo hoje, mas estando ontem): crianças, adolescentes, mães, pais, avós, amada, amigos, chefes; amor, alegria, medo, angústia, doença, morte; gestos, pensamentos, decisões, hesitações, dilemas, descobertas, surpresas, crueldades, dores, prazeres. Como se simultaneamente tivéssemos e não tivéssemos podido preencher de outro modo as esquadrias do poder, da vontade, do desejo, do dever, da obrigação. Cúmplices impotentes de Némesis. Cercados pela barreira do tempo. Porque o tempo é implacável e este livro diz-nos isto: diz-nos que a nossa condição mortal de vítimas do tempo se irmana existencialmente a um caso localizado e delimitado pelo tempo que já foi. Némesis está sempre em aberto.
Némesis é a vingança.
Admitir a vingança é sentir a culpa. Associar a culpa ao desejo, à ambição, à aspiração, ao projeto, à escalada, ao encontro da felicidade, da perfeição. Porque cada passo é um abandono. O impulso de adesão a um novo patamar de progresso, de crescimento; a retirada, mesmo que inocente, da alçada do sofrimento; a entrega à alegria, ao entusiasmo, ao êxtase da comunhão com a natureza pura, vivificadora, tornam-se culpa, porque defraudam a obrigação de estar presente e partilhar os maus momentos. Cada passo é um abandono. A defesa da felicidade própria é culpa de egoísmo, acolhido como objeto da vingança por parte da transcendência que se manifesta no lançamento de uma praga, de uma peste. Os deuses não gostam, nunca gostaram, de que os homens se aproximem da perfeição. Ou, dito de uma maneira mais atualizada, embora não menos trágica: a perfeição não existe; se procurarmos bem, veremos sempre o fio imperfeito da trama, a mancha, nem que seja só em versão de ameaça, nem que seja só em versão neurótica. Projetamos desejo de perfeição para nos sentirmos imperfeitos e disso nos culparmos.
O nó angustiosamente apertado, o nó distribuidor da energia positiva/negativa que circula pelas linhas do desenho das vidas narradas, é a morte. A morte, e uma das suas formas de ameaça, a doença. O motor e nó fundamental da rede de sentimentos, pensamentos, vivências, experiências, circulante e alimentadora do sentido dos factos, é a morte. Como um monstro escondido, conhecido apenas nas suas manifestas consequências e nos conflitos que desencadeia:
— o contágio vs. a inexistência de meios para o evitar; vs. a suspeição, a fantasia, a insegurança;
— o alvo aparentemente preferencial, as crianças e os jovens, vs. a incerteza; vs. o conhecimento empírico, a não-ciência;
— a inutilização de capacidades físicas, suplicial, sisífica vs. o valor, sublinhado no universo narrado, do equilíbrio, da força, da energia, do poder atlético, da beleza corporal;
— a morte vs. a indefinição do seu combate pela insuficiência do poder curativo.
Sobre a vida, na sua aparente simplicidade e enganadora segurança, abate-se uma cortina de luz negra, um negrume desconhecido e ameaçador. Um repentino clique, um alarme, mudam tudo:
— o professor, que deve ser tranquilo e confiante, está nervoso e amedrontado;
— a criança, que deve viver despreocupada, vive, agora, condicionada;
— o amor-promessa de vida e felicidade dá lugar à rejeição, ao fechamento.
— os comportamentos humanos são reconfigurados em reações conscientes, ponderadas, refletidas, em tranquilidade profissional, ou em impulsos surpreendentes, pânico, descontrolo, egoísmo, autodefesa.
Toda a seiva vital se vai escoando até à pedra densa e negra, ao buraco negro final, concentração de antienergia, de antimatéria, nada.
Do quadro “risonho e lindo de uma aguarela do quotidiano”, ao nada, em 206 páginas.
A condição humana, sujeita a determinações que a limitam e a dominam, transforma-se em mera consequência.
Quando temos na mão cada pedra deste puzzle, é isto que temos na mão. Não uma construção simples de acontecimentos documentados, inseridos num dado momento histórico, mas a dimensão existencial, trágica, desses acontecimentos.
Némesis, filha da Noite, é a vingança divina, criada pelas Parcas, que castigou, em Creso, a riqueza, em Narciso, a beleza. Némesis, a inevitável, não responde, por mais que aflitivamente perguntemos: — Porquê? Para quê?
Némesis não é uma narrativa puramente trágica. O canto do corpo, da saúde, do exercício físico, do ar livre e puro, da juventude, em contraluz do negrume da morte e da doença incapacitante, é lírico. O lirismo da maneira americana de viver, lisa, desprovida de metáfora, confronta-se com a simbólica do desconhecido, mas não glosa, em pastoral americana, nem bruxedos nem rezas. Busca as possíveis formas de higiene, a rejeição do sujo, do descontrolado, do louco, do indisciplinado, do historicamente anormal.
Trata-se afinal de uma memória individual que durante largo tempo de leitura desconhecemos, de um contador que parece não sentir necessidade de se identificar, porque afinal o assunto é comum. A sua identificação parece desnecessária no contexto intradiegético e o seu anonimato fraterno com o leitor. O peso, a gravidade, a tragicidade dos acontecimentos narrados cabem no relato quase-anónimo de alguém, que, como o autor do romance, Philip Roth, os viveu.
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
Tempo
Pensava vendo corporeamente o tempo e isso permitia-lhe alcançar uma dimensão senso-ideográfica em que o objeto do pensamento se projetava num tempo parado, um tempo puro, impossível mas ideado, cerebralmente inventado, em que as coisas se revelavam inteiras, puras.
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
Passagem de ano
Canto a esgotar-se. Momento de pose.
Onzena de gritos sem alento.
Reboam, mergulham e rasam o chão.
Milimetricamente para o vento.
Levantam de novo… mas agora são:
Doze.
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