segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Carta de Uma Professora... [V]






Quando me lembro de vós e vos vejo, parece-me que gostaríeis de que a Escola só vos dissesse que sim, servisse apenas para oficializar o que já sabeis, para vos ratificar a vós que vindes já todos feitinhos por um mundo superpovoado de tanta e tão truculenta informação. Gostaríeis que a escola só vos fizesse as perguntas para as quais já possuís as respostas. Ou, pelo menos, respostas aproximadas que estais convencidos de que servem perfeitamente e que a Escola, como um parceiro benévolo, deveria aceitar. Por isso, ficais de certo modo ofendidos e perplexos, como se não estivésseis a ouvir bem, como se se tratasse de um problema de tradução, quando vos recuso peremptoriamente respostas imprecisas, pouco rigorosas, ainda que sensivelmente parecidas com o que poderia e deveria ser. É como se, acerca de tudo e de cada coisa de que a Escola tem de tratar, já tivésseis ouvido falar neste mundo que de tudo fala. Como se o vosso olhar me estivesse a dizer: — Assim, como quer, não sei bem… Eu sei, mas não sei é dizer do modo que quer… Com certeza que já ouvi falar disso… Mas não está a perceber bem… não está a perceber que eu já sei isso… É esta reacção primeira de incredulidade que se dá quando eu não coincido, me recuso a coincidir com a falabaratice que anda pelos mundos visuais e virtuais que vos cercam e são o vosso habitat informativo. É tão engraçado ver as vossas caras perante a firmeza e a impassibilidade da exigência de um saber rigoroso, dito com palavras rigorosas! São tão engraçados os vossos amuos, as vossas perrices, quando são liminarmente rejeitadas as vossas laboriosas falas: «é assim uma coisa tipo…»; «ah, isso é aquela coisa do…»; «é género um…». E a verdade, meus alunos, é que eu até poderia reagir, sou mesmo aconselhada, orientada para reagir, começando por dizer sim e depois indo acrescentando mas, até chegar ao não. Suavidade no trato! Não sou capaz. Confesso que não sou capaz. E o que vos digo, bem pelo contrário, o que vos digo é: não. Assim, não. Há que aprender outra maneira de ser: rigorosa. E depois, sem complacência, substituo o vosso arremedo de conhecimento por um discurso cheio de palavras que se vos tornam difíceis. E o vosso olhar parece começar a adoptar a estratégia defensiva da desconfiança: — Não estará ela a inventar? ou — Precisarei eu, mesmo, de saber isto assim, nesta versão, como ela quer? Esta é a vossa incredulidade perante o saber escolar, que nunca procuro travestir para que vos pareça mais familiar. Verdadeiramente divertido para mim é o vosso percurso da incredulidade à fé! Tão divertido, ser professor! Nestas coisas é que é divertido ser professor. Começais por essa atitude pouco confiante, mas, ao mesmo tempo, tendes medo de perder alguma coisa, medo de que, ao predispor-vos para menosprezardes a minha versão, possais perder algum trunfo, possais de algum modo fragilizar a vossa posição no jogo didáctico. E é aí que algum ou alguns de vós, embora também cépticos, mas menos perdulários, resolvem entrar no meu jogo, resolvem tacticamente adoptar a minha versão, o meu tom, o meu registo, começando a dizer coisas ‘diferentes’, algumas tão ‘diferentes’ que vos parecem quase esotéricas. Dizem coisas que, em boca de aluno, parecem tão bem soantes! E fazem nascer pela sala, aqui e ali, alguma admiração. E é então que começa a dar-se um efeito de alastramento, efeito-dominó-ao-contrário em que as peças (vós) sucessivamente se levantam. E é então que, ao mesmo tempo que sorris como que com algum desdém ou algum pudor, como que começais como que a sentirdes-vos como que excluídos da como que tertúlia que se gera entre mim e esses que decidiram entrar no meu jogo. Então, mais disponíveis, tendo alargado um bocadinho mais os vossos critérios do não querer saber, levados pela cobiça do ‘diferente’ que tanto vos atrai ou apanhados desprevenidos por um lance de curiosidade e entusiasmo autênticos, começais a passar da desconfiança à dúvida. Chegados à dúvida, zás! Estais ganhos. Quando vos apanho de olhar já preso ao lado de cá, ao lado do saber que tenho para vós, deixo o resto por minha conta. Tenho então artes de vos fazer passar para o lado da Escola, deixando o nosso jogo calculista e passando ao fascinante jogo da verdade. Tão divertido, meus alunos!
Maria Almira Soares, Carta de uma professora aos seus últimos alunos

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

LER



quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Carta de uma professora... [IV]



Fantasiosamente e sem dilemas, posso falar-vos agora do que entendo que seja ser professor, tema que, se ainda estivéssemos aí, no mundo real, não me pareceria, de modo algum, assunto de conversa a haver entre uma professora e os seus alunos. Ser professor pertence à natureza de um colóquio melindroso como um cristal sempre em risco de se partir e, uma vez quebrado, impossível de regenerar. Já imaginastes uma peça de cristal que se partiu forçadamente colada com uma fita adesiva qualquer? Coisa medonha! Preferível seria tirá-la de cena. Penso que conheceis aquelas paisagens que se desprendem e se compõem dentro de ampolas de cristal… Podem elas servir de alegoria para que compreendais a natureza do que é ser professor? Podem. É preciso, porém, que estejais avisados de que há, entre a imagem e o ser, uma diferença determinante. A alegoria serve para, mas não é. Assim, ao professor, diferentemente de à paisagem dentro da bola de cristal, não é dada a perenidade cíclica. Não. Ser professor é, como ela, intocável e belo, mas não recomponível. Ou se completa a maravilha da paisagem e permanece ou nunca chega a sê-lo, tornando-se, para sempre, uma coisa esfarinhadamente derramada. O que vos estou a tentar dizer, meus alunos, de uma maneira por enquanto bastante imperfeita, pois que ainda está no seu início, o que vos digo, agora que estamos a sonhar, é que ser professor é uma coisa paradoxalmente intangível e provável. Embasbacados? Não, não fiqueis embasbacados, porque, afinal, como acima ficou combinado, estamos a sonhar e o sonho é um dos reinos do que não tem medida. O sonho é o irmão sagrado da invenção e inventar, meus alunos, é uma das coisas mais deliciosas que, neste mundo, podemos fazer. Deixai-vos pois levar por esta minha invenção do que é ser professor e procurai sentir-vos felizes. Eu sei que gostais de inventar. Deixai-me que também goste e não vos alarmeis, porque os sonhos têm os seus momentos: uns mais obscuros, outros mais luminosos. Deixai-vos conduzir nesta obscuridade inicial enquanto procuramos a verdade de ser professor. Os sonhos são egoístas, são de cada um. É impossível planear um sonho em grupo; só, depois, os podemos contar. Assim, vou continuar a construir, ante vós, este meu sonho de ser professor, mesmo que isso, nunca por nunca, tenha aflorado um sonho vosso. Se não gostardes mesmo, se não tiverdes paciência, acordai, acendei a luz e ponde-vos a ler, que não é certamente pior coisa. O professor, todos os professores que, ao longo das vossas pequenas vidas, têm entrado para uma sala convosco, para que, aí, haja uma aula, não se limitam a ser a versão neo-realista do que são. Mesmo que o não saibam, transcendem-se, entram na dimensão milenar de um encontro para ensinar. E isto, meus alunos, isto do ensinar, por mais maltrapilho que se tenha tornado, não é uma coisa qualquer, não é como ir à padaria comprar pão, nem sequer como pousar bem as mãos num teclado. Arrepio-me quando vejo as boas-vontades, que por aí abundam, a equipararem profissões, para as hierarquizar segundo a confiança popular, e vejo que lá vem o professor empilhado com o merceeiro e com o polícia e com a modista. Têm boa vontade, mas sabem muito pouco. Está um professor de pé, no meio de vós, rebatendo um discurso insistente, com pausas pré-destinadas e gestos sucedâneos da impossibilidade física que lhe foi cometida, a ele cujo encanto é permanecer na sua ampola transparente. Quebrar o encanto é fazê-lo desaparecer para sempre. Coisa que até parece de conto de fadas. Está o professor e o seu desamparo é grande. Não tanto como o de uma criança, mas quase. Só em vós, meus alunos, pode obter a resposta que procura. Mas vós, que talvez tenhais vindo por outras razões ou até nem saibais por que razões viestes, vós não o pedistes, ao professor, não o encomendastes. Estais. Ali. Ali como poderíeis estar, por exemplo, em casa, se, àquela hora, fosse tempo de férias. O professor é que cria o vosso tempo e não vós. Pareceis esperar uma revelação qualquer, mas, se ela não vier, tanto vos faz. A alguns, pelo menos. A outros, não. Em qualquer caso, há ali um equilíbrio de procedimentos que quer vir a culminar num resultado que vos afecta. Que o afecta. Também. Muito está previsto, mas o imprevisível desta cena, quase primitiva, é substancialmente maior. Em verdade, ninguém abarca totalmente o que ali está a acontecer. Talvez por isso é que todos os gestos, muitos deles imprevistos, incontroláveis, quando vistos daqui, desta sonhada procura da verdade, se tornam belos. Como quem olha a ampola e vê coisas trémulas a tenderem para se acomodar em paisagem, bela na sua procura de uma harmonia difícil. Saiba muito ou saiba pouco, esteja muito ou pouco preparado, seja muito ou pouco intuitivo, o professor reveste sempre a figura do sublime desamparado. Desarvorado entre seres inquietos, tange uma possível harmonia. Uma harmonia de natureza rara que tem momentos quase sagrados. Raríssimos. Mas existentes. Existentes, mas perdidos. Mal-notados. Deles, mais ninguém saberá nunca, mas existiram. Há quem os incorpore e se sinta feliz. Há quem nem dê por eles, convencido de que, ali, continua a haver apenas gente e ar sem nenhuma vibração nova. Isto, de que vos falo, é intocável como a paisagem da ampola. Se se partir, perde-se para sempre. Ser professor tem, na aparência, mil formas de o ser, mas, em nenhuma delas, deixa de haver a corporalidade de estar ali, que sobrevive à historicidade de todos os disfarces, de todas as manipulações, de todos os prolongamentos.
Maria Almira Soares, Carta de Uma Professora aos Seus Últimos Alunos

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Que rico xarope!











Uma cadeira sentiu-se muito cansada e foi ao médico.
— Então que há?
— Senhor doutor, doem-me as costas.
— Dói-te aqui?
— Dói, dói.
— E aqui?
— Também dói.
— Respira fundo.
— …
— Bem, podes-te vestir.
— Senhor doutor, é grave?
— Sossega, minha filha. Vais tomar este xarope e ficas boa. Sabes, têm-te sentado muito.
A cadeira agarrou na receita e dirigiu-se à farmácia de serviço. O farmacêutico era homem de muitos remédios.
— Que é que queres?
— Quero que me avie este xarope.
— Que é que dizes?
— Faça-me o favorzinho de me aviar esta receitazinha.
— A minha mãe me acuda se percebo o que tu dizes. És chinesa?
O farmacêutico, quando viu que não havia mesmo nada a fazer, telefonou a um amigo dele que sabia várias línguas. O amigo veio a toda a pressa.
— Vê se entendes aqui esta cadeira.
— Que é que tu queres?
— Queria que me aviasse este xarope para as minhas costas.
— Não, não percebo. Nem é chinesa. Se fosse chinesa, via-se logo.
O farmacêutico pôs um anúncio no jornal.

PRECISA-SE
DE QUEM PERCEBA DE CADEIRAS.
Apareceram:
10 marceneiros
20 carpinteiros
30 empalhadores
40 envernizadores
100 velhinhos que sofriam de reumatismo.

Mas nenhum acertou.
Ora apareceu mais uma pessoa que ficou à porta e o farmacêutico perguntou-lhe:
— És marceneiro?
— Não senhor.
— És carpinteiro?
— Não senhor.
— És empalhador? Envernizador? Velhinho com reumatismo?
— Não senhor, não senhor, não senhor.
— Em todo o caso queres experimentar?
— Sim senhor.
Entrou, conversou animadamente com a cadeira, escreveu-lhe o nome do xarope, desejou-lhe as melhoras.
Todos de boca aberta, mas quem tomou o xarope foi a cadeira.
Ficou uma cadeira cómoda, resistente e segura. Até foi nela que me sentei para escrever esta história. O peitoril da janela fica lá muito alto, de maneira que é a essa cadeira que eu subo para ver a cidade. Que rico xarope!

Mário Castrim in As Crianças Entrevistam 16 Escritores

sábado, 30 de Janeiro de 2010

MUDAM-SE OS TEMPOS...



EM MAIO...



EM JANEIRO...

Fotografias de Maria Almira Soares

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Numa boémia de cores



Elena Soldatkina, Football Game


Ei-la!...

Tu... avança! — Lá vai ela!
Corre!...
— Atira-te com alma!...
Defende-a... vamos! — então?
E a bola, ao entrar nas redes,
suspendeu a alegria muscular
e a juvenil vibração.

Estoiram as aclamações;
e a luz do sol enfraquece.

Mas o jogo novamente principia:
Os «vermelhos»
vão envolvendo os «leões»;
e o ataque,
bem marcado,
vai revelando a vitória
que — desenhada e conduzida
com rasgos da mais límpida nobreza,
atinge o seu máximo valor:
A bola, rápida, cai,
passando
por entre os braços erguidos
do garboso jogador.

Palmas, delírio — grandeza!

Alguém atira uma rosa
para os «onze» vencedores,
e ao longe o sol agoniza
numa boémia de cores.

                        António Botto

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

A MALDIÇÃO




Victor Klemperer                    Thomas Mann


27 de Janeiro [de 1934]

 

[…] Leitura em voz alta do Jaakob de Thomas Mann. Uma obra absolutamente genial e absolutamente nova. Qualquer hora devo fazer anotações bem precisas. Ponto de vista: do Iluminismo até agora, de Voltaire, passando por Renan e Flaubert e France, até Mann; a sátira e a parte magistralmente abordada por esse humor, a respeito dessa filosofia e história religiosas, dessa psicologia do «indivíduo aberto para o passado». De fato, algo absolutamente novo e comoventemente grandioso (na verdade mais desolado, mais descrente que Voltaire, Renan, France). E não se fala em nenhum jornal sobre essa obra grandiosa, o livro não está exposto em nenhuma vitrine. Sobre ele pesa a dupla maldição de ser de autoria de Mann e de tratar de Israel (em vez de um herói nórdico).
[…] Quando um dia escrever meu 18e Siècle — esse «quando» torna-se a cada semana mais duvidoso — , o novo Thomas Mann terá nele o seu papel.


In Os Diários de Victor Klemperer — Testemunho Clandestino de um Judeu na Alemanha Nazi, Companhia das Letras, SãoPaulo, 1999.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

O PURO PÁSSARO É POSSÍVEL







O PORTUGAL FUTURO


O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz


Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo*, Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, págs. 366-367.

_____________________________

*Poeta português: 27/2/1933, S. João da Pesqueira, concelho de Rio Maior — 8/8/1978, Queluz.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

UMA OSGA BORGESIANA






O Vendedor de Passados, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004.

[...]
Considera o novo romance, O Vendedor de Passados, muito diferente do que fez até agora. Porquê?
Os romances anteriores deram-me muito trabalho prévio, obrigaram a uma enorme pesquisa biográfica. Este é pura ficção. Não exigiu nenhuma pesquisa, saiu todo de dentro de mim. Parti de duas crónicas que escrevi na Pública, delineei uma estrutura simples e comecei a escrever.
José Eduardo Agualusa – O Independente
[...]
Escolhendo um narrador peculiar...
Este livro é uma homenagem a Jorge Luís Borges, o escritor, em conjunto com Eça, que mais me marcou. A osga é uma reencarnação de Borges, que, pessoalmente era uma personagem antipática – e esta é uma pequena vingança. Quando a osga recorda o passado, conta fragmentos biográficos do próprio escritor. Gosto de osgas, o que, geralmente, é considerado estranho. Lembram-me a minha infância e as férias em Benguela num velho casarão. Como precisava de um narrador que fosse um pequeno deus, omnipresente e omnisciente, que soubesse tudo o que se passava naquela casa...
José Eduardo Agualusa – O Independente
[...]
Além da homenagem, porque Jorge Luis Borges aparece no romance na figura de uma osga, que é uma espécie de lagartixa?
Borges disse numa entrevista que não gostaria de reencarnar, mas que se isso acontecesse, preferiria reencarnar num país distante. Eu lhe fiz a vontade. Fiz com que reencarnasse num país distante e sob uma forma viva também um pouco distante da nossa. No romance, ele interroga-se sobre as razões por que isso lhe sucedeu. Ainda assim despertou entre livros, num velho sebo, o que para ele era uma imagem do paraíso.
José Eduardo Agualusa – Estado de S. Paulo
[...]
No mesmo livro, você faz com que Borges reencarne em Angola na figura de uma osga, uma espécie de lagartixa. Qual foi a importância do escritor na sua formação literária?
Borges foi, com Eça de Queirós, e antes dele Jorge Amado, uma das minhas primeiras grandes paixões literárias. Depois houve outras – Gabriel García Márquez, Rubem Fonseca, Nabokov, Bruce Chatwin, Coetzee e tantos outros. O que, a princípio, me atraiu em Borges foi a exatidão, a concisão, aquela sensação de que a palavra pode realmente conter o mundo. Evidentemente, a paixão pelos paradoxos, pelo fantástico e pelo absurdo, isso ainda hoje me atrai.
José Eduardo Agualusa – Jornal do Brasil
[...]
Felix Ventura é uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos. Identidade e memória são temas dominantes nos seus romances...
O que me divertiu foi jogar com os equívocos. Félix não sabe se aquele estrangeiro, José Buchmann, é uma completa invenção sua, se sempre existiu ou se ele é que foi iludido. Este verdadeiro jogo de espelhos acaba por ser a vida. Somos aquilo de que nos lembramos, somos a nossa memória. Embora todos os psicólogos saibam que grande parte das nossas memórias são inventadas, acreditamos que vivemos situações que, de facto, não existiram.
José Eduardo Agualusa – O Independente
[...]
Uma história muito borgesiana...
É um livro sobre a memória, sobre a fragilidade da nossa memória, sobre a maneira como a construímos, sobre o que inventamos, o que passamos a acreditar e o que julgamos que realmente aconteceu. É também uma parábola sobre esta sociedade que está a viver uma transição muito rápida de um sistema socialista para um sistema capitalista, permitindo a uma série de pessoas acumular fortunas em pouco tempo. É sim, uma história muito borgesiana. Posso dizer que este livro está para Jorge Luís Borges como Nação Crioula estava para Eça de Queirós.
José Eduardo Agualusa – Ler, 2004
[...]
Em O Vendedor de Passados, o facto de Félix Ventura ser albino é propositado?
Naturalmente. Em todos os meus livros dedico uma grande atenção às pessoas que, por algum motivo, são marginalizadas pela sociedade [...] Os albinos são perseguidos em muitos países africanos por motivos absurdos. Em Angola, felizmente, a situação não é tão grave. Ainda assim, é difícil ser albino em Angola, da mesma forma que é muito difícil ser um deficiente motor, ser cego, ser estrangeiro. Nos dias que correm [2009], por exemplo, é difícil ser congolês. Os trabalhadores congoleses, os trabalhadores honestos, que estão a ser perseguidos pelo único facto de serem congoleses, também têm a minha simpatia.
José Eduardo Agualusa – Novo Jornal

Retirado daqui.

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

José Eduardo Agualusa

EUGÉNIO DE ANDRADE









A Sílaba


Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz,
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.

Eugénio de Andrade, Ofício de Paciência (1994)

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

A LEITURA COMO INTERROGAÇÃO






AGUALUSA, UM EÇA TROPICAL?

Será José Eduardo Agualusa um Eça tropical?
Será o osga agualusiano de O Vendedor de Passados o desenvolvimento de um avatar tropical das irónicas hipálages ecianas transpostas para um outro clima? Da estirpe de um reverendo Bonifácio, de um esquecido/escondido/vigilante chapéu de Vilaça, de um mocho medonho esculpido num móvel medonho da Toca, de umas queijadas crugianas? De uma Vénus melancólica no jardim do Ramalhete? O sentido retórico desta série de interrogações implicita uma resposta afirmativa, mas… mas… Desprovida da função ominosa da ironia em Eça de Queirós?
É que, apesar da mudança de clima, a sombra de Eça passeia-se por outros lugares deste romance: a intriga familiar cheia de ocultos, a desocultação de um parentesco, o reconhecimento como tópico essencial do trágico, a função trágica do regresso do passado.
E, no entanto, ao atribuir o ponto de vista narrativo a um animal com memória, Agualusa não determina uma finalidade, nem positiva nem negativa; cauciona uma sabedoria da vida, um humor distanciado, a roda livre da metamorfose universal recolectora de experiências fundadoras.
O que é, afinal, este confiar da função narrativa a um animal com juízo mas sem fala? Profético de um destino? Do mutismo como fórmula mortal de animalização?

Maria Almira Soares

sábado, 16 de Janeiro de 2010

POR ISSO,




Manuel da Fonseca

Foi para a escola e aprendeu a ler
e as quatro operações, de cor e salteado.
Era um menino triste:
nunca brincou no largo.
Depois, foi para a loja e pôs a uso
aquilo que aprendeu
— vagaroso e sério,
sem um engano,
sem um sorriso.
Depois, o pai morreu
como estava previsto.
E o Senhor António
(tão novinho e já era «o Senhor António»!...)
ficou dono da loja e chefe de família…
Envelheceu, casou, teve meninos,
tudo como quem soma ou faz multiplicação!...
E quando o mais velhinho
já sabia contar, ler, escrever,
o Senhor António deu balanço à vida:
tinha setenta anos,um nome respeitado…
— que mais podia querer?
Por isso,
num meio dia de Verão,
sentiu-se mal.
Decentemente abriu os braços
e disse: — Vou morrer.
E morreu!, morreu de congestão!...

Manuel da Fonseca, Poemas Completos

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

RELÍQUIA



LER AQUI.

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Get Into Reading




Leia aqui.



sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

A osga leitora e «As Mil e Uma Noites» de Sir Richard Burton




 

.

Tradutor de As Mil e Uma Noites
para inglês.


Em criança, ainda antes de aprender a ler, passava horas na biblioteca da nossa casa, sentado no chão, a folhear grossas enciclopédias ilustradas, enquanto o meu pai compunha versos árduos, que depois, muito sensatamente, destruía. Mais tarde, já na escola, refugiava-me nas bibliotecas para fugir às brincadeiras, sempre brutais, com que os rapazes da minha idade se entretinham. Fui um menino tímido, franzino, alvo fácil da chacota dos outros. Cresci — cresci até um pouco mais do que é comum —, ganhei corpo, mas continuei retraído, avesso a aventuras. Trabalhei durante alguns anos como bibliotecário e creio que fui feliz nessa época. Tenho sido feliz depois disso, inclusive agora, neste pequeno corpo a que fui condenado, enquanto acompanho, num ou noutro romance medíocre, a felicidade alheia. Na grande literatura são raros os amores felizes. E, sim, ainda agora leio. Percorro as lombadas ao entardecer. Entretenho-me, à noite, com os livros que Félix deixa abertos, esquecidos, sobre a mesa-de-cabeceira. Sinto a falta, nem eu sei bem porquê, d’ As Mil e Uma Noites, na versão inglesa de Richard Burton. Devia ter oito ou nove anos quando a li pela primeira vez, às escondidas do meu pai, porque na época era ainda uma obra obscena. Não posso regressar às Mil e Uma Noites mas em contrapartida venho descobrindo novos escritores. Agrada-me, por exemplo, Coetzee, o bóer, pela aspereza e a precisão, o desespero sem indulgência. Surpreendeu-me saber que os suecos distinguiram uma obra tão boa.
Lembro-me de um quintal estreito, de um poço, de uma tartaruga dormindo na lama. Ia um bulício de gente para além das grades. Recordo ainda as casas, baixas, afundadas na luz fina (como areia) do crepúsculo. A minha mãe estava sempre ao meu lado, uma mulher frágil e feroz, ensinando-me a recear o mundo e os seus perigos inumeráveis.
«A realidade é dolorosa e imperfeita», dizia-me, «é essa a sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos. Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.»

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados

sábado, 2 de Janeiro de 2010

Seria uma rima, não seria uma solução...






Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond De Andrade, «Poema de sete faces»

terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

O VENDEDOR DE PASSADOS


A COMUNIDADE DE LEITORES
 LERDOCELER
 ESTÁ A LER O VENDEDOR DE PASSADOS
DE JOSÉ EDUARDO AGUALUSA.

Dia 12 de Janeiro há tertúlia.







terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

BOM NATAL!

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

RELÍQUIA